Thursday, 20 November 2008
Thursday, 13 November 2008
{sonho perdido} capítulo 28
Capítulo 28: amanhã vai ser outro diapor miki w.
Para ler ouvindo: “Cello Suite nº 1 Prélude” de Johann Sebastian Bach por Yo-Yo Ma
Foram acordados pelo delicioso cheirinho de café que Lili e Fábio passavam na cozinha, mas a manhã parecia estranha. O corpo estava descansado e muito embora ainda se lembrassem da descoberta do dia anterior, um certo alheamento tomava conta das mikos. De uma certa maneira, parecia que aquilo não importava mais tanto quanto eles acreditavam ser importante.

Apareceram todos com umas carinhas amassadas na porta da cozinha:
- Bom dia!
- Olá! Acomodem-se que o café está quase pronto.
Lili as esperava com um sorriso no rosto, uma enorme barriga grávida e um belo café da manhã. Seu sorriso era genuíno e cativante.
As mikos ficaram surpresas e felizes em conhecer Lili. Ela tinha uma beleza serena mas, ao mesmo tempo, ligeiramente estonteante e eles ficaram como que hipnotizados.
Será... – pensou Kiku consigo mesma – que é essa barriga muito grávida que traz esse encantamento?
Lili parecia envolta numa névoa invisível de bem-estar e completude. Seu sorriso aquecia e confortava e as mikos se sentiram amadas de um amor tão luminoso e puro que, por um momento, tiveram a impressão de que era impossível algo dar errado.
- Lili... você é tão linda. – Sakurá não conseguiu deixar de dizer isso em voz alta. Em seus olhos, brilhavam estrelas e sorrisos.
- Ora, Sakurá! Muito obrigada!
Lili sorriu para Sakurá e continuou:
- Ontem à noite, Fábio me contou sobre a longa aventura. Vocês são muito valentes. Eu fiquei encantada e muito comovida com a história...
Estavam tão enlevados com a presença de Lili que se sentiram absolutamente à vontade para exporem seus sentimentos mais íntimos. Foi Kiku quem começou:
- Sabe, Lili, quando me dei conta de que cada um é dono de suas próprias vontades e igualmente responsável por tudo o que resultar delas... eu finalmente compreendi que não tinha o direito de forçar as pessoas a sonhar sonhos verdadeiros. E isso também me fez ver que... bom, fico um pouco envergonhada em admitir que os sonhos verdadeiros do nosso jardim são os meus prediletos. – Kiku emendou isso de um fôlego só com medo de perder a coragem de dizer – no fim, me sinto um pouco... culpada.
Ao que Yanagi emendou:
- Afinal, é para o que fomos destinados e deveríamos ter igual amor a todos eles...
- Mas isso não significa que deixemos de cuidar bem dos demais sonhos. – lembrou Momiji.
Lili sorriu afetuosamente antes de começar:
- Pois eu acho perfeitamente natural que cada um de nós tenha lá as suas preferências. Anti-natural seria não ter, vocês não acham? Acho importante ter as próprias opiniões pois, caso contrário, como iríamos crescer, evoluir? Seria um mundo estranho... mas acredito igualmente que devemos ser gentis na medida certa para não sobrepujar o outro que, assim como nós, tem suas próprias opiniões e preferências. E isso se chama respeito.
Lili sorriu um sorriso gentil e verdadeiro para as mikos, antes de continuar:
- Cada um é livre para escolher. – e nesse momento, ela olhou para Fábio que pegou em sua mão, dando-lhe um beijo – e o máximo que podemos fazer é ajudar. Há a ajuda mais direta, praticamente um aconselhamento se o outro assim quiser e se a gente se sentir capacitado para isso. Mas há também outras maneiras mais indiretas de se ajudar... no fim das contas, acho que tudo o que podemos fazer é tentar inspirar as pessoas... mas a escolha, definitivamente, é delas.
Sakurá ficou repetindo baixinho, como se todas as coisas tivessem vindo para o seu devido lugar naquele exato momento:
- Inspirar as pessoas. Inspirar as pessoas. Inspirar as pessoas.
E, sentindo um amor muito grande por Lili, ela a abraçou como uma criança faria com o seu bem mais precioso e disse:
- Lili, você descobriu a chave! A verdadeira resposta que a gente buscava e nem sabia... é essa! – e começou a chorar, muito emocionadinha.

- Ora, ora, Sakurá, não acho que eu seja assim tão especial. O mérito é todo de vocês. Acho que eu apenas formulei uma verdade que já vivia em seus corações desde sempre. Ocorreu de poder conversarmos aqui e agora, nada mais, nada menos. Fico muito feliz em poder colaborar, o sonho de vocês é tão puro, tão bonito... só essa história que viveram poderia inspirar muita, mas muita gente mesmo. Talvez já esteja inspirando até.
- Você acha mesmo, Lili? – Tampopo, timidamente, perguntou.
- Eu não tenho a menor dúvida, Tampopo!
A impressão que tiveram de que era impossível algo dar errado tinha se concretizado. Tudo parecia fazer sentido.
Naquela tarde, as mikos tomaram o tele-transporte para, finalmente, voltarem ao seu lar. Ao mesmo tempo que sentiam um apertozinho no coração e um nozinho na garganta, também ansiavam em chegar ao lugar onde verdadeiramente perteciam.
Na porta de casa, Fábio e Lili ficaram acenando, parados, até que elas sumissem totalmente de vista.
***
Mais ou menos “fim”, digamos (risos). E se você também pudesse ajudar as mikos? Você tem uma história que acredita que pode “inspirar as pessoas”? Se você gostar da idéia, você pode soprá-la no ouvido da sua miko predileta e ela cuidará de publicá-la aqui no blog. Escreva para mikokeshi@gmail.com! Ou diretamente para cada uma delas:
» miko.kiku@gmail.com
» miko.momiji@gmail.com
» mm.miko.sakura@gmail.com
» miko.tampopo@gmail.com
» miko.yanagi@gmail.com.
Agradecimentos: ao Chico Buarque, de quem furtei o título do capítulo!
A história acabou. Para mim, foi um desafio e tanto ao qual eu me impus por quase 8 meses! Mas... o trabalho de artista, embora seja recompensador, é muito solitário. E quase não tem interlocutor.
Então, eu ficaria muito muito feliz e agradecida se vocês leitores pudessem me enviar feedbacks: se gostaram, se não gostaram, se foi cansativo, difícil, modorrento, alegre. Críticas são muito bem-vindas pois me ajudam a saber onde estou errando =). Mas só se você tiver vontade de escrever. Pode deixar um comentário logo aí abaixo ou me enviar por email, se preferir: mundomiki@gmail.com.
A todos que passam por aqui, o meu muito, muito obrigada!
Beijos, Miki
Thursday, 6 November 2008
{sonho perdido} capítulo 27
Capítulo 27: finalmente, a chavepor miki w.
Para ler ouvindo: “Seu Barbosa” de Paulo Vanzolini por Ana Bernardo
Fábio levantou-se e colocou um disco de Paulo Vanzolini para tocar. A música preencheu o ambiente enquanto as mikos tentavam assimilar a incrível história que tinham acabado de ouvir. Entre maravilhados e confusos, esperançosos e afoitos, eles dispararam as perguntas, todos ao mesmo tempo:

- Fábio, e a Lili?
- Fábio... você não se arrepende?
- Fábio, você sabe dizer qual o momento exato que fez com que você se reconectasse ao seu sonho verdadeiro?
- Ou o quê?
- Ou, ainda, como foi que você fez?
Fábio riu uma risada divertida e disse:
- Péra lá! O mundo não vai acabar amanhã.
As mikos riram também, mas, em seus olhinhos, brilhava a ansiedade.
Fábio começou respondendo que desde que tinham se mudado e largado aquela vida para trás, Lili foi melhorando cada dia um pouquinho mais. Ele disse acreditar que aquilo foi um pouco como um processo de “desintoxicação”. A vida, três anos depois, era bem melhor, embora, nem de longe, eles tivessem as mordomias de outrora. Porém, agora, comungavam de uma cumplicidade e de uma energia que parecia derramar seu fluxo infinito e constante sobre eles. Quando terminou de responder, virou-se para Sakurá e sorriu.
A pequena ficou feliz com a resposta mas, sentindo-se um pouco envergonhada, corou e abaixou a cabeça para não deixar os olhos à mostra.
Fábio virou-se, então, para Momiji e lhe disse que não, não se arrependia de nada. Nem de ter escolhido algo que mudou o seu destino para sempre, nem de tudo pelo que passou, nem de ter dado uma nova guinada na vida e muito menos de ter aberto mão de todo o conforto e status que dinheiro e um cargo de destaque podiam dar. “Acho que aprendi muito com cada um desses acontecimentos marcantes. Claro que poderia ter sido diferente, mas isso seria viver uma outra vida e não há como desfazer o passado. Sei que cometi erros como não ter dado ouvidos aos meus verdadeiros amigos que vez ou outra vinham me aconselhar. Ao mesmo tempo, aprendi muito sobre assuntos que dificilmente eu teria tido acesso se, de cara, tivesse escolhido a carreira de Professor.”
Momiji ouvia atentamente, balançando a cabeça como quem concorda com as decisões que Fábio resolveu tomar. Ao final, parecia bastante satisfeito com a resposta para a sua pergunta.
Fábio ficou em silêncio por breves momentos antes de prosseguir.
Ele recomeçou dizendo que nunca havia parado para pensar à respeito de como-quando-onde ele havia, de fato, se reconectado ao seu antigo sonho. Era menos uma linha divisória que ele tivesse atravessado e, de repente, “virado outra pessoa” e muito mais um processo:
“Primeiro o choque em perceber o quanto eu era responsável por tudo aquilo que estava acontecendo com Lili. Foi preciso que ela chegasse à beira do abismo para que, finalmente, eu acordasse e arranjasse coragem para enfrentar os meus fantasmas.
Esse baque foi muito doloroso, mas ainda havia muito por vir... desenterrar aquele sonho antigo também doeu, mas não acho que havia como ser diferente. Embora eu estivesse em pedaços, cada vez mais eu tinha certeza de que era aquilo tudo mesmo o que tinha que ser feito.
Contudo, o que mais me consumiu foi a decisão de largar tudo. Eu me digladiei porque achava que não era justo privar Lili de um padrão de vida ao qual eu mesmo a havia conduzido... também pensava no que seria da Empresa se, de uma hora para outra, eu – como se diz por lá – “jogasse a toalha”.
No meio desse questionamento íntimo, uma pergunta começou a me incomodar: será que eu não estaria me escondendo atrás dessas desculpas porque, na verdade, tinha medo de falhar, de ver meu sonho ruir?
Aquilo doeu, mas me ajudou a ver que, lá no fundo, o meu ego ainda precisava ser muito domado. Lili nunca me pediu nada. Se construí castelos para ela, foi minha vontade e não a dela. E, embora eu fosse um profissional competente e lucrativo – me desculpem se pareço arrogante, mas não suporto a falsa modéstia – igualmente eu sabia, lá no fundo, que ninguém é insubstituível.”

Novamente, Fábio ficou em silêncio, como que pensando à respeito do que acabara de formular.
“Eu acho que quando me despi de tudo o que eu achava que as pessoas achavam que eu devia ser, quando eu finalmente tive a coragem de sustentar a minha verdade sem ter vergonha de nada ou de ninguém, foi aí que tudo mudou. Mas eu tive que querer isso. Mas querer de verdade. Querer... a minha verdade.”
Para ler ouvindo: Samba Triste de Paulo Vanzolini por Ana de Hollanda
Foi a vez das mikos ficarem introspectivas e pensativas. Só o som de Vanzolini preenchia o silêncio. Fábio esperava pacientemente.
Kiku, depois de muito tempo, cortou o silêncio:
- Fábio, viemos até aqui porque queríamos descobrir uma maneira de “reativar” os sonhos verdadeiros em nosso jardim. Achamos que cabia a nós fazer algo à respeito – na qualidade de guardiões dos sonhos das pessoas, entende?
Fábio acenou com um gesto afirmativo de cabeça, convidando Kiku a continuar.
- Mas, agora... depois de ouvir a sua história... me ocorreu que... fazer isso, ou seja, querer que o jardim tenha mais sonhos verdadeiros, é moldar a vontade das pessoas de acordo com as nossas. E... – nesse momento, ela chorou um pouquinho, parecendo muito triste – eu não acho que isso seja um direito nosso. Não temos o direito de interferir na vontade das pessoas. Elas são livres para escolher o que lhes aprouver, não é verdade?
E ela baixou a cabeça, decepcionada por entender que talvez sua missão tivesse sido em vão. Que não adiantavam as boas intenções, que ela definitivamente não tinha o direito de fazer prevalecer a sua vontade sobre a de quem quer que fosse ainda que os motivos fossem bons e genuínos. Cada um tinha que fazer a sua escolha.
- É verdade – disse Fábio – talvez você tenha razão, Kiku. E, veja, forçar alguém a fazer alguma coisa – mesmo quando acreditamos que seja para o bem dela – não costuma dar muito certo. Eu mesmo tive várias oportunidades de escolher o meu sonho. Mas, eu enganava a mim mesmo me escondendo atrás da falta de tempo, de ser um sujeito muito ocupado, de ter muitas responsabilidades... era mais fácil deixar de lado, esquecer, não pensar muito à respeito. Hoje eu vejo que fugia porque doía menos e não porque eu não queria de verdade. Eu não queria nunca mais ser julgado pelas pessoas. Então, mesmo que alguém bem-intencionado viesse me aconselhar – e vieram, mas eu fiz questão de esquecer – eu jamais teria capitulado. Porque eu não estava convencido. A mudança só é possível, pequenos, quando você acredita nela. Quando você acredita que precisa dela. Você, você mesmo. Tarde da noite, sozinho, você e seu travesseiro, quando não tem que dar satisfação para ninguém. Mas ninguém mesmo. Nem pais, nem amigos e principalmente à sociedade que espera um comportamento assim ou assado de você.
- Então é isso, não é, Fábio? Acho que eu finalmente entendi... a tal chave para abrir o coração dos homens é essa vontade de encontrar a sua própria verdade. Uma verdade verdadeira, não é mesmo? – Tampopo também chorou um pouquinho ao dizer isso. Era um esforço grande demais para alguém que não era muito afeito a dizer seus pensamentos em voz alta. Especialmente para outras pessoas.
- Tampopo, não me sinto capacitado para responder à essa questão... quem sou eu para afirmar alguma coisa? Especialmente algo com um significado tão profundo? Só posso dizer o que foi a minha experiência. No meu caso, foi exatamente assim como você disse. Mas quem sabe se funciona para outras pessoas também?
As mikos choravam em silêncio... depois de tantas peripécias, elas finalmente haviam encontrado a resposta que vinham buscando incessantemente. Mas, e agora? Elas achavam que, com a resposta, poderiam voltar pra casa e continuar tocando a vida como antes e finalmente conseguir ajudar as pessoas a sonhar sonhos verdadeiros. Mas descobriram que não era tão simples assim. Fábio abraçou as mikos cheio de compaixão e solidariedade.
- Vamos, vocês estão cansados, foi um longo dia... viajaram, andaram debaixo desse sol escaldante, ouviram uma história intensa e fizeram uma descoberta não exatamente agradável. O corpo, às vezes, precisa de descanso e talvez isso seja tudo o que possamos fazer por ele nesse momento. Amanhã é um novo dia, pensaremos em algo juntos. O desânimo é natural e compreensível, mas procurem não deixar que ele tome conta completamente de vocês. Um bom banho e uma boa noite de sono vai fazer com que vocês se sintam melhores, o que acham?
Cabisbaixas e sentindo como se todo o cansaço acumulado tivesse vindo bater em seus pobres corpinhos com aquela descoberta, elas apenas assentiram com a cabeça e seguiram Fábio até um cômodo onde Lili – que chegara sem fazer barulho – havia improvisado um quarto de visitas.

Participe! Dói muito ver um sonho tão acalentado ruir... Será que as mikos vão encontrar uma saída? Se você tem uma dica ou quiser deixar uma mensagem solidária, é só escrever um comentário logo aí embaixo!
Caso sua contribuição seja aceita, seu nome figurará nos créditos de colaboração da construção da trama. No entanto, ao participar deste processo colaborativo, eles passam a ser parte integrante da história como um todo e, portanto, de propriedade intelectual da autora. Ao enviar uma colaboração, você concorda que está ciente das condições aqui descritas.
Agradecimento: ao @diordan que desejou que o “Seu Barbosa” do Vanzolini inspirasse um belo episódio. Visite seu blog aqui e saiba de seu gosto musical logo ali =^.^=! Valeu, Diogo.
Dedicatória: ao Fabio M. hoje e sempre :-*
Thursday, 30 October 2008
{sonho perdido} capítulo 26
Capítulo 26: o sonho de fábio, parte iipor miki w.
Para ler ouvindo: “In a manner of speaking” por Nouvelle Vague
“Foi o pior dia da minha vida. E ali, naquela janela fria e impessoal do hospital, eu falei para mim mesmo que não queria mais aquela vida pra mim. Por um momento, tive vontade de quebrar tudo, de despejar a minha frustração, o meu remorso, a minha raiva em alguma coisa, mas eu apenas segurei meu rosto com as mãos e chorei. Chorei aos soluços até amanhecer. O que eu ainda não tinha condições de perceber era que estava desapontado era comigo mesmo.
Na cabeceira da cama de Lili, eu fiz uma promessa a ela baixinho, mas do fundo do coração: “Lili, nunca mais vou te fazer mal. Nunca.”
Com o coração um tico mais leve, mas ainda cheio de remorsos, foi que eu comecei a pensar novamente em meu sonho de criança. E, uma vez mais, não pude evitar as lágrimas. Meu peito doía. Eu tinha trancado, lacrado, colocado uma pedra bem pesada em cima do meu sonho para que ele não pudesse sair de lá por vinte anos. Vinte longos anos... E o que foi que eu fiz durante todo esse tempo?
Com carinho e cuidado, eu desloquei a pedra, tirei o pó da caixa. E, devagar, abri sua tampa. Centelhas quase se apagando faiscaram bem fraquinho. Senti que ainda havia uma esperançazinha para mim.

Pedi desculpas em silêncio e as fagulhas cintilaram uma vez mais como a me redimir, a me perdoar, como quem diz “está tudo bem”.
Lili voltou para casa, mas passava os dia na cama, olhando para a janela com os olhos perdidos no vazio.
Quanto a mim, a impressão que eu tinha era a de que havia passado por uma porta e trancado a minha velha vida do lado de lá. Não que eu exatamente me arrependesse. Acho que aprendi muitas coisas, que, inclusive me seriam bastante úteis na minha “nova vida”. Mas, talvez, eu pudesse ter ficado menos tempo por lá... e ter vindo para cá muito antes.
Comecei a fazer planos para a “nova vida”, lembrando com carinho daquele sonho tão acalentado desde criancinha. As pessoas achavam que eu tinha ficado completamente louco... comecei novamente a ver aquela já conhecida expressão de incredulidade, repreensão e até um certo desprezo. Mas, diferentemente de antes, aquilo já não me incomodava. Desta vez, eu tinha convicção de que aquele era o meu verdadeiro caminho.
Refleti muito sobre tudo o que eu havia passado. E cheguei à conclusão de que “ser professor” era apenas uma parte do meu sonho. Finalmente entendi que, o que eu realmente gostaria, era de dar a minha contribuição – por pequena que fosse – em construir um mundo melhor. Eu acreditava que a Educação podia mudar o mundo.
Mas, farto até as tampas da tal “cartilha do bem-sucedido”, percebi que o ensino tradicional não dava conta do que eu queria. Na minha cabeça, aquele tipo de ensino não ensinava a viver, mas sim a passar no vestibular e aí estava o seu grande erro. Na minha visão de mundo, aquilo era o início da cartilha e só de pensar nisso, eu sentia calafrios.
Eu podia estar enganado ou parecer petulante com essas idéias, mas, depois de tanto tempo, definitivamente, eu não faria nada que não tivesse um mínimo de coerência com aquilo em que eu acreditava.
Lili continuava na mesma, mas, agora, eu sabia exatamente o que tinha que fazer: eu traria a luz de volta aos seus olhos junto com a verdade do meu eu.
Gastei bastante tempo pesquisando sobre o que o mundo andava fazendo pela Educação desde antigamente até o que havia de mais atual. Me inspirando aqui e ali, finalmente cheguei à conclusão de que eu deveria construir a minha própria escola. Na noite em que isso clareou na minha cabeça, eu não consegui dormir.

Claro que era um projeto ambicioso e eu tinha – quer dizer, tenho – a consciência de que havia muito a ser aprendido, especialmente porque eu nunca havia trabalhado com isso antes.
O primeiro passo foi decidir onde a escola seria instalada. E eu escolhi este lugar, uma grande favela da minha cidade natal.
O projeto ainda é pequeno e tímido e está apenas começando. Sei que vou enfrentar dificuldades, situações com as quais nunca lidei, impasses... por isso vou devagar e sempre.
Porém, não tenho dúvidas de que fiz a coisa certa. Cada vez que vejo o rosto de uma criança querendo aprender, isso é o maior incentivo que eu poderia ter para acreditar que o meu sonho vai vingar!”
E, dizendo isso, ele sorriu um sorriso amável e afetuoso que envolveu as mikos e todo o ambiente em um calor bom e agradável.
Participe! E agora que as mikos sabem sobre o sonho verdadeiro de Fábio, o que virá em seguida? Se você tem um palpite, deixe um comentário logo aí embaixo!
Caso sua contribuição seja aceita, seu nome figurará nos créditos de colaboração da construção da trama. No entanto, ao participar deste processo colaborativo, eles passam a ser parte integrante da história como um todo e, portanto, de propriedade intelectual da autora. Ao enviar uma colaboração, você concorda que está ciente das condições aqui descritas.
Agradecimento: à Pat K. que me “soprou” a trilha sonora deste capítulo mesmo sem querer :-D
Dedicatória: ao Fabio M. hoje e sempre :-*
Thursday, 23 October 2008
{sonho perdido} capítulo 25
Capítulo 25: o sonho de fábio, parte ipor miki w.
Para ler ouvindo: “Realize” por Colbie Caillat
“Eu ainda era muito menino, mas desde que consigo me lembrar das minhas memórias mais distantes, eu me lembro desse sonho.
Toda vez que os adultos vinham com aquela pergunta: “Fabinho, o que você quer ser quando crescer?” – eu já tinha a resposta na ponta da língua. Hoje eu sei que elas achavam graça, mas, no fundo, pensavam que “era uma coisa boba de criança”. Quando fiquei um pouco mais velho, fui percebendo que elas me olhavam de uma maneira esquisita toda vez que eu falava disso. Foi então que decidi esconder o sonho para mim mesmo. Na minha cabeça, eu não estava desisistindo, estava apenas me protegendo.
Mas, eu não podia me esconder para sempre e, uma hora, chegou o momento do confronto. O que para outros era motivo de orgulho ou a realização de um sonho, para mim tinha virado uma quase-tortura. Meus pais vieram me aconselhar, mas, acima de tudo, me apoiar fosse qual fosse a minha escolha:
“Meu filho, você sabe, ser professor no Brasil é uma tarefa difícil. Embora seja uma profissão super importante, os professores não são bem pagos, são esquecidos... Você tem certeza de que é isso mesmo o que quer? Você sabe que estaremos do seu lado qualquer que seja a sua decisão, mas talvez você tenha uma vida de muito sacrifício... Procure pensar em tudo isso.”
Aquela noite custou a passar. Ser professor, poder ensinar outras pessoas – na minha cabeça – era algo tão fantástico! E ainda receber fazendo isso, parecia um mundo perfeito. Mas, pela primeira vez na vida, eu tive dúvidas... e se eu morresse de fome? Será que desse jeito eu odiaria ser professor?

Tive muito medo de ver meu sonho destruído. Um medo tão irracional que, tremendo, escolhi “Engenharia” na ficha do vestibular.
E foi assim, numa noite, que o destino com o qual eu havia sonhado a minha vida toda mudou bruscamente de rumo. Eu não sabia, mas começava uma nova etapa que me levaria para águas escuras, redemoinhos que me puxavam cada vez mais para baixo sem que eu sequer me desse conta direito...”
Para ler ouvindo: “Bird girl” por Antony & the Johnsons
“Eu não estava exatamente contente, mas fui tocando a faculdade. O assunto em si não me interessava, isso era óbvio. Mas minha curiosidade em conhecer coisas novas me ajudou a seguir em frente. No começo, eu me lembrava constantemente do meu sonho e olhava para ele como quem pede desculpas. Mas, eu havia feito a minha escolha. Aos poucos, ela foi tomando uma parte grande do meu tempo, da minha energia e, no fim, da minha vida. Eu não desgostava, mas, lá no fundo, não podia dizer que estava feliz.
Foi então que conheci a Lili.
Lili era uma moça linda e cheia de alegria de viver. Era artista. Em toda a sua plenitude. Maluquinha de tudo, fazia o que lhe dava na telha. Era inconsenqüente muitas vezes, não pensava no futuro, mas vivia intensamente cada minuto de sua vida. Mas... às vezes, ficava muito triste sem motivo aparente. Então se trancava no quarto escuro, não queria ver ninguém.
Claro que eu me apaixonei.
Na minha vida profissional, as coisas foram se encaminhando como se tivessem uma vontade própria. Comecei um estágio, depois outro até que fui contratado. Se eu me comprometia com algo, pode ter certeza de que teria dedicação e perseverança. E não foi diferente nesse caso. Foi assim que fui crescendo na carreira, muito, muito.
“Lili, sou eu, abre essa porta.” Mas ela não abria. Ela não dizia nada, ficava ali, trancada, no escuro, com a pior solidão de todas: a da alma. “Lili, deixa eu entrar.” Nada. Silêncio sepulcral. Lili me deixava aflito às vezes, mas eu a amava de verdade. Como nunca mais amaria ninguém...
Minha vida era boa, eu era tudo aquilo o que as pessoas acreditam que alguém “bem-sucedido” deveria ser: um alto executivo jovem e promissor, muito dinheiro, uma mulher linda e apaixonada e mais tantas outras bobagens materiais que... enfim, não importa... o fato é que eu tinha uma vida invejável. Invejável até demais, hoje eu vejo.
Sem que percebesse, estava trilhando o que eu mesmo agora chamo de “a cartilha do bem-sucedido”. Vamos ver... página 12:
“Depois de galgar o posto do tipo “X” em uma multinacional do tipo “Y”, o próximo passo é...”
“Para ser bem-sucedido, você tem que consumir isso, se comportar assim e é claro que tudo isso vai lhe trazer a felicidade. Não tem erro.”
Eu não me dava conta, mas o fato é que estava bastante infeliz.
Porém, a vida tratou de me dar um safanão. Um safanão que abalou as minhas então certezas para sempre e... definitivamente.
Lili era depressiva, disso nós já sabíamos. Fomos procurar ajuda médica, ela vinha fazendo progressos, mas quando finalmente decidiu que queria ser mãe, não conseguiu. Demorou para que ela ficasse grávida, mas o bebê não vingou e depois de muito sofrimento, frustradíssimos, fomos procurar ajuda. O médico disse que não havia nada de errado com ela. Que era normal acontecer tudo aquilo especialmente se ela estivesse estressada.
Eu sentia um aperto tão grande no coração quando a olhava de longe... ela passava horas, às vezes eu achava até que dias, na frente da penteadeira antiga, de penhoar, empoando-se. Era lindo de se ver... tinha cheiro de rosas e a pele era delicada como suas pétalas. Mas triste, uma tristeza que doía...

Eu teria feito tudo, qualquer coisa para tirá-la daquele estado. Mas... eu falhei... me ligaram do hospital... Lili tinha tentando se matar. Fiquei arrasado, tão infinitamente triste que não consegui segurar as lágrimas.
Estava tudo errado. Tudo errado.
“Você não entende? O homem com quem me casei tinha um brilho nos olhos, tinha sonhos... e você? Quem é você?”
Ela me disse isso e virou-se para o outro lado da cama. Depois dormiu... ela me pareceu exausta. Exausta... de viver.”
Nesse momento, ele fez uma pausa e ficou olhando pela janela por um longo tempo...
Participe! O que será que aconteceu depois dessa tragédia na vida de Fábio? Se você tem um palpite, deixe um comentário logo aí embaixo!
Caso sua contribuição seja aceita, seu nome figurará nos créditos de colaboração da construção da trama. No entanto, ao participar deste processo colaborativo, eles passam a ser parte integrante da história como um todo e, portanto, de propriedade intelectual da autora. Ao enviar uma colaboração, você concorda que está ciente das condições aqui descritas.
Dedicatória: ao Fabio M. hoje e sempre :-*
Monday, 20 October 2008
{adotadas} as mikos da maria alice
Thursday, 16 October 2008
{sonho perdido} capítulo 24
Capítulo 24: o encontropor miki w.
Para ler ouvindo: “Koop island blues” de Magnus Zingmark, Oscar Simonsson & Ane Brun por Koop com vocais de Ane Brun
Sentiram uma pontinha de tristeza enquanto caminhavam em direção às cápsulas de tele-transporte. Por que a hora da partida tinha que ser sempre triste?
Deve ser... porque a gente se apega às pessoas que conhece pelo caminho. E, pensando assim, ligaram o receptor de origem-destino.
Origem: Sonhar. Destino: São Paulo.

Novamente e uma vez mais, não souberam dizer quanto tempo se passou desde que deixaram o Sonhar até aportarem num gramado sem árvores à vista. Por um longo tempo, aproveitaram os raios de sol esparramados no chão para se restabelecerem da longa viagem.
Estavam ainda por ali, refestelados na grama e no sol e esticando os corpinhos cansados quando um homem de idade indefinida veio até eles. Apesar dos cabelos prateados e um pouco compridos, um quê de travessura de menino insistia em brincar em seu rosto.
- Bom dia. Posso me sentar com vocês?
As mikos sorriram e assentiram com a cabeça. O homem se acomodou, muito à vontade, no gramado.
- Pode parecer um tanto quanto estranho o que eu vou dizer... mas tenho a impressão de que estavam a minha espera?
Momiji e Yanagi reconheceram Fábio na hora em que o viram. Depois de tanto tempo acompanhando seus sonhos, eles não tinham dúvida de que “ele era ele”. Embora se sentissem um pouco constrangidos da própria bisbilhotice, paradoxalmente sentiam-se praticamente um “amigo da família” também.
- Você... – Fábio apontou Momi – e você... como vocês se chamam?
- Eu sou Momiji e este é meu amigo Yanagi. Estas são Sakurá e Kiku e ali, Tampopo.
As mikos se curvaram, cumprimentando-o à maneira japonesa.
- Muito prazer, meu nome é Fábio. – e, parecendo muito estupefato, disse a Momiji – eu... tenho a impressão de já ter visto você e Yanagi em algum lugar.
- Sim, você nos conhece, embora talvez não se lembre de nós quando acorde...
O homem refletiu por alguns minutos em silêncio.
- Eu... tive um sonho estranho esta noite. Na verdade, ele não é muito claro para mim, parece que brumas enevoam algumas das lembranças... mas me lembro de uma pessoa longelínea e muito alta, vestida de um preto mais escuro que a noite. E de que em seus olhos brilhavam estrelas. De alguma maneira, sinto que ele me mandou aqui hoje.
As mikos sorriem uma vez mais e Momiji diz:
- Você quer ouvir uma história?
E assim eles narram sua aventura desde o princípio. Quando um esquece um detalhe, o outro faz um aparte e assim a história continua de boca em boca e a manhã passa ligeira. Eles contam de seu jardim; da jornada que decidiram empreender; de sua estada na casa da Bia e do que aprenderam com os sonhos capturados; de como descobriram Sandman e porque foram procurá-lo. Do que aconteceu no Sonhar; do encontro com Umê e finalmente da mandala-hanabi e das bisbilhotices aos sonhos dele.
Fábio ouvia a tudo boquiaberto e pontuava a contação da história com “ohhhs” e “ahhhs” admirados. Vez ou outra, ele perguntava algo.
- Se alguém me dissesse que viveu uma experiência como essa que estou vivenciando com vocês, eu ia duvidar da pessoa... ia achar que era fruto de sua imaginação. Mas, nesse momento, estranhamente, tudo parece fazer tanto sentido! Insólito, não?
As mikos, então, ansiosas e cheias de esperança, perguntaram:
- Você... tem um grande sonho, não tem?
Fábio esboçou um sorriso, olhou para o céu muito azul, encheu o peito de ar e, parecendo muito satisfeito consigo mesmo, disse que sim com um brilho especial nos olhos que fez com que a sua alma se iluminasse.
- E... Fábio, será que você pode nos contar como é que fez para, hum... digamos assim... “libertar” esse seu grande sonho?
- Ah... essa é uma longa, longa história... talvez não tão bonita como a de vocês, mas, ainda assim, uma bela história. Venham, vou levá-los até a minha casa. Lá, melhor acomodados e descansados, eu contarei tudo!
Caminharam em silêncio pelo gramado, o sol já ia a pino. Saíram numa calçada larga. As mikos nem tinham percebido que, ao redor do parque, a selva de concreto os rodeava e quase engolia. Ziguezagueando entre os feios prédios cinzas, tristes e gigantes, elas iam seguindo Fábio atordoadas com a sinfonia nem um pouco harmoniosa dos barulhos urbanos.
Passaram por casinholas construídas com pedaços de madeira, lata e papelão, construções precárias e que davam a impressão de terem sido feitas com o material que o dono tinha à mão. Ali, nem sinal mais de verde ou árvores. Aquilo tudo era um mundo novo para eles, que prestavam atenção em cada detalhe mesmo estando tão cansados.
Foram ladeando essas construções precárias e serpenteando atrás de Fábio. O sol já castigava bastante as exaustas mikos, mas eles não reclamavam. Depois de uma curva sinuosa, ele disse:
- Desculpem-me por ter feito vocês caminharem tanto debaixo desse sol. Esta é a minha casa. Sejam muito bem-vindos. Por favor, entrem.
A casa era pequena e arrumada com simplicidade, mas dela emanava uma atmosfera acolhedora e reconfortante. Estava fresco, muito embora o sol entrasse pelas janelas iluminando tudo por ali. Seus raios faziam desenhos no chão de cacos de cerâmica coados pelas cortinas rendadas imaculadamente brancas.
Fábio trouxe refrescos para todos, enquanto as mikos se acomodavam no tapete – seu lugar preferido de sentar – rejeitando o sofá e as poltronas.
Ele acomodou-se em uma poltrona, limpou a garganta e, com um sorriso genuíno de orgulho e alegria, iniciou a narrativa...

Participe! Qual será o grande sonho de Fábio? Será que ele sabe mesmo a resposta que as mikos tanto procuram? Se você tem um palpite, deixe um comentário logo aí embaixo!
Caso sua contribuição seja aceita, seu nome figurará nos créditos de colaboração da construção da trama. No entanto, ao participar deste processo colaborativo, eles passam a ser parte integrante da história como um todo e, portanto, de propriedade intelectual da autora. Ao enviar uma colaboração, você concorda que está ciente das condições aqui descritas.
A referência a Sandman tem a única intenção de homenagear e divulgar o primoroso trabalho desenvolvido por Neil Gaiman. Todos os direitos pertencem a seus respectivos proprietários.
Agradecimentos: à Érica B. que me apresentou ao Koop ^.^
Dedicatória: este capítulo é dedicado ao Fabio Montenegro, um amigo e chefe muito querido que me ensinou muitas coisas e me devolveu a confiança da criação quando eu já tinha perdido todas as minhas esperanças de que conseguiria novamente. Fabio, onde quer que você esteja, receba meu abraço e meu carinho de coração.
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