Thursday, 6 November 2008

{sonho perdido} capítulo 27

Capítulo 27: finalmente, a chave
por miki w.

Para ler ouvindo: “Seu Barbosa” de Paulo Vanzolini por Ana Bernardo

Fábio levantou-se e colocou um disco de Paulo Vanzolini para tocar. A música preencheu o ambiente enquanto as mikos tentavam assimilar a incrível história que tinham acabado de ouvir. Entre maravilhados e confusos, esperançosos e afoitos, eles dispararam as perguntas, todos ao mesmo tempo:


- Fábio, e a Lili?

- Fábio... você não se arrepende?

- Fábio, você sabe dizer qual o momento exato que fez com que você se reconectasse ao seu sonho verdadeiro?

- Ou o quê?

- Ou, ainda, como foi que você fez?

Fábio riu uma risada divertida e disse:

- Péra lá! O mundo não vai acabar amanhã.

As mikos riram também, mas, em seus olhinhos, brilhava a ansiedade.

Fábio começou respondendo que desde que tinham se mudado e largado aquela vida para trás, Lili foi melhorando cada dia um pouquinho mais. Ele disse acreditar que aquilo foi um pouco como um processo de “desintoxicação”. A vida, três anos depois, era bem melhor, embora, nem de longe, eles tivessem as mordomias de outrora. Porém, agora, comungavam de uma cumplicidade e de uma energia que parecia derramar seu fluxo infinito e constante sobre eles. Quando terminou de responder, virou-se para Sakurá e sorriu.

A pequena ficou feliz com a resposta mas, sentindo-se um pouco envergonhada, corou e abaixou a cabeça para não deixar os olhos à mostra.

Fábio virou-se, então, para Momiji e lhe disse que não, não se arrependia de nada. Nem de ter escolhido algo que mudou o seu destino para sempre, nem de tudo pelo que passou, nem de ter dado uma nova guinada na vida e muito menos de ter aberto mão de todo o conforto e status que dinheiro e um cargo de destaque podiam dar. “Acho que aprendi muito com cada um desses acontecimentos marcantes. Claro que poderia ter sido diferente, mas isso seria viver uma outra vida e não há como desfazer o passado. Sei que cometi erros como não ter dado ouvidos aos meus verdadeiros amigos que vez ou outra vinham me aconselhar. Ao mesmo tempo, aprendi muito sobre assuntos que dificilmente eu teria tido acesso se, de cara, tivesse escolhido a carreira de Professor.”

Momiji ouvia atentamente, balançando a cabeça como quem concorda com as decisões que Fábio resolveu tomar. Ao final, parecia bastante satisfeito com a resposta para a sua pergunta.

Fábio ficou em silêncio por breves momentos antes de prosseguir.

Ele recomeçou dizendo que nunca havia parado para pensar à respeito de como-quando-onde ele havia, de fato, se reconectado ao seu antigo sonho. Era menos uma linha divisória que ele tivesse atravessado e, de repente, “virado outra pessoa” e muito mais um processo:

“Primeiro o choque em perceber o quanto eu era responsável por tudo aquilo que estava acontecendo com Lili. Foi preciso que ela chegasse à beira do abismo para que, finalmente, eu acordasse e arranjasse coragem para enfrentar os meus fantasmas.

Esse baque foi muito doloroso, mas ainda havia muito por vir... desenterrar aquele sonho antigo também doeu, mas não acho que havia como ser diferente. Embora eu estivesse em pedaços, cada vez mais eu tinha certeza de que era aquilo tudo mesmo o que tinha que ser feito.

Contudo, o que mais me consumiu foi a decisão de largar tudo. Eu me digladiei porque achava que não era justo privar Lili de um padrão de vida ao qual eu mesmo a havia conduzido... também pensava no que seria da Empresa se, de uma hora para outra, eu – como se diz por lá – “jogasse a toalha”.

No meio desse questionamento íntimo, uma pergunta começou a me incomodar: será que eu não estaria me escondendo atrás dessas desculpas porque, na verdade, tinha medo de falhar, de ver meu sonho ruir?

Aquilo doeu, mas me ajudou a ver que, lá no fundo, o meu ego ainda precisava ser muito domado. Lili nunca me pediu nada. Se construí castelos para ela, foi minha vontade e não a dela. E, embora eu fosse um profissional competente e lucrativo – me desculpem se pareço arrogante, mas não suporto a falsa modéstia – igualmente eu sabia, lá no fundo, que ninguém é insubstituível.”


Novamente, Fábio ficou em silêncio, como que pensando à respeito do que acabara de formular.

“Eu acho que quando me despi de tudo o que eu achava que as pessoas achavam que eu devia ser, quando eu finalmente tive a coragem de sustentar a minha verdade sem ter vergonha de nada ou de ninguém, foi aí que tudo mudou. Mas eu tive que querer isso. Mas querer de verdade. Querer... a minha verdade.”

***

Para ler ouvindo: Samba Triste de Paulo Vanzolini por Ana de Hollanda

Foi a vez das mikos ficarem introspectivas e pensativas. Só o som de Vanzolini preenchia o silêncio. Fábio esperava pacientemente.

Kiku, depois de muito tempo, cortou o silêncio:

- Fábio, viemos até aqui porque queríamos descobrir uma maneira de “reativar” os sonhos verdadeiros em nosso jardim. Achamos que cabia a nós fazer algo à respeito – na qualidade de guardiões dos sonhos das pessoas, entende?

Fábio acenou com um gesto afirmativo de cabeça, convidando Kiku a continuar.

- Mas, agora... depois de ouvir a sua história... me ocorreu que... fazer isso, ou seja, querer que o jardim tenha mais sonhos verdadeiros, é moldar a vontade das pessoas de acordo com as nossas. E... – nesse momento, ela chorou um pouquinho, parecendo muito triste – eu não acho que isso seja um direito nosso. Não temos o direito de interferir na vontade das pessoas. Elas são livres para escolher o que lhes aprouver, não é verdade?

E ela baixou a cabeça, decepcionada por entender que talvez sua missão tivesse sido em vão. Que não adiantavam as boas intenções, que ela definitivamente não tinha o direito de fazer prevalecer a sua vontade sobre a de quem quer que fosse ainda que os motivos fossem bons e genuínos. Cada um tinha que fazer a sua escolha.

- É verdade – disse Fábio – talvez você tenha razão, Kiku. E, veja, forçar alguém a fazer alguma coisa – mesmo quando acreditamos que seja para o bem dela – não costuma dar muito certo. Eu mesmo tive várias oportunidades de escolher o meu sonho. Mas, eu enganava a mim mesmo me escondendo atrás da falta de tempo, de ser um sujeito muito ocupado, de ter muitas responsabilidades... era mais fácil deixar de lado, esquecer, não pensar muito à respeito. Hoje eu vejo que fugia porque doía menos e não porque eu não queria de verdade. Eu não queria nunca mais ser julgado pelas pessoas. Então, mesmo que alguém bem-intencionado viesse me aconselhar – e vieram, mas eu fiz questão de esquecer – eu jamais teria capitulado. Porque eu não estava convencido. A mudança só é possível, pequenos, quando você acredita nela. Quando você acredita que precisa dela. Você, você mesmo. Tarde da noite, sozinho, você e seu travesseiro, quando não tem que dar satisfação para ninguém. Mas ninguém mesmo. Nem pais, nem amigos e principalmente à sociedade que espera um comportamento assim ou assado de você.

- Então é isso, não é, Fábio? Acho que eu finalmente entendi... a tal chave para abrir o coração dos homens é essa vontade de encontrar a sua própria verdade. Uma verdade verdadeira, não é mesmo? – Tampopo também chorou um pouquinho ao dizer isso. Era um esforço grande demais para alguém que não era muito afeito a dizer seus pensamentos em voz alta. Especialmente para outras pessoas.

- Tampopo, não me sinto capacitado para responder à essa questão... quem sou eu para afirmar alguma coisa? Especialmente algo com um significado tão profundo? Só posso dizer o que foi a minha experiência. No meu caso, foi exatamente assim como você disse. Mas quem sabe se funciona para outras pessoas também?

As mikos choravam em silêncio... depois de tantas peripécias, elas finalmente haviam encontrado a resposta que vinham buscando incessantemente. Mas, e agora? Elas achavam que, com a resposta, poderiam voltar pra casa e continuar tocando a vida como antes e finalmente conseguir ajudar as pessoas a sonhar sonhos verdadeiros. Mas descobriram que não era tão simples assim. Fábio abraçou as mikos cheio de compaixão e solidariedade.

- Vamos, vocês estão cansados, foi um longo dia... viajaram, andaram debaixo desse sol escaldante, ouviram uma história intensa e fizeram uma descoberta não exatamente agradável. O corpo, às vezes, precisa de descanso e talvez isso seja tudo o que possamos fazer por ele nesse momento. Amanhã é um novo dia, pensaremos em algo juntos. O desânimo é natural e compreensível, mas procurem não deixar que ele tome conta completamente de vocês. Um bom banho e uma boa noite de sono vai fazer com que vocês se sintam melhores, o que acham?

Cabisbaixas e sentindo como se todo o cansaço acumulado tivesse vindo bater em seus pobres corpinhos com aquela descoberta, elas apenas assentiram com a cabeça e seguiram Fábio até um cômodo onde Lili – que chegara sem fazer barulho – havia improvisado um quarto de visitas.



Participe! Dói muito ver um sonho tão acalentado ruir... Será que as mikos vão encontrar uma saída? Se você tem uma dica ou quiser deixar uma mensagem solidária, é só escrever um comentário logo aí embaixo!

Caso sua contribuição seja aceita, seu nome figurará nos créditos de colaboração da construção da trama. No entanto, ao participar deste processo colaborativo, eles passam a ser parte integrante da história como um todo e, portanto, de propriedade intelectual da autora. Ao enviar uma colaboração, você concorda que está ciente das condições aqui descritas.

***

Agradecimento: ao @diordan que desejou que o “Seu Barbosa” do Vanzolini inspirasse um belo episódio. Visite seu blog aqui e saiba de seu gosto musical logo ali =^.^=! Valeu, Diogo.

Dedicatória: ao Fabio M. hoje e sempre :-*

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2 comments:

Valentina said...

Querida, a beleza das tuas palavras, este lindo desenho...me encanto sempre.sempre.E esta linda música.

miki w. said...

tina querida, sodades muitas!

fico muito feliz que vc esteja gostando!

uma beijoca estalada, miki