Capítulo 26: o sonho de fábio, parte iipor miki w.
Para ler ouvindo: “In a manner of speaking” por Nouvelle Vague
“Foi o pior dia da minha vida. E ali, naquela janela fria e impessoal do hospital, eu falei para mim mesmo que não queria mais aquela vida pra mim. Por um momento, tive vontade de quebrar tudo, de despejar a minha frustração, o meu remorso, a minha raiva em alguma coisa, mas eu apenas segurei meu rosto com as mãos e chorei. Chorei aos soluços até amanhecer. O que eu ainda não tinha condições de perceber era que estava desapontado era comigo mesmo.
Na cabeceira da cama de Lili, eu fiz uma promessa a ela baixinho, mas do fundo do coração: “Lili, nunca mais vou te fazer mal. Nunca.”
Com o coração um tico mais leve, mas ainda cheio de remorsos, foi que eu comecei a pensar novamente em meu sonho de criança. E, uma vez mais, não pude evitar as lágrimas. Meu peito doía. Eu tinha trancado, lacrado, colocado uma pedra bem pesada em cima do meu sonho para que ele não pudesse sair de lá por vinte anos. Vinte longos anos... E o que foi que eu fiz durante todo esse tempo?
Com carinho e cuidado, eu desloquei a pedra, tirei o pó da caixa. E, devagar, abri sua tampa. Centelhas quase se apagando faiscaram bem fraquinho. Senti que ainda havia uma esperançazinha para mim.

Pedi desculpas em silêncio e as fagulhas cintilaram uma vez mais como a me redimir, a me perdoar, como quem diz “está tudo bem”.
Lili voltou para casa, mas passava os dia na cama, olhando para a janela com os olhos perdidos no vazio.
Quanto a mim, a impressão que eu tinha era a de que havia passado por uma porta e trancado a minha velha vida do lado de lá. Não que eu exatamente me arrependesse. Acho que aprendi muitas coisas, que, inclusive me seriam bastante úteis na minha “nova vida”. Mas, talvez, eu pudesse ter ficado menos tempo por lá... e ter vindo para cá muito antes.
Comecei a fazer planos para a “nova vida”, lembrando com carinho daquele sonho tão acalentado desde criancinha. As pessoas achavam que eu tinha ficado completamente louco... comecei novamente a ver aquela já conhecida expressão de incredulidade, repreensão e até um certo desprezo. Mas, diferentemente de antes, aquilo já não me incomodava. Desta vez, eu tinha convicção de que aquele era o meu verdadeiro caminho.
Refleti muito sobre tudo o que eu havia passado. E cheguei à conclusão de que “ser professor” era apenas uma parte do meu sonho. Finalmente entendi que, o que eu realmente gostaria, era de dar a minha contribuição – por pequena que fosse – em construir um mundo melhor. Eu acreditava que a Educação podia mudar o mundo.
Mas, farto até as tampas da tal “cartilha do bem-sucedido”, percebi que o ensino tradicional não dava conta do que eu queria. Na minha cabeça, aquele tipo de ensino não ensinava a viver, mas sim a passar no vestibular e aí estava o seu grande erro. Na minha visão de mundo, aquilo era o início da cartilha e só de pensar nisso, eu sentia calafrios.
Eu podia estar enganado ou parecer petulante com essas idéias, mas, depois de tanto tempo, definitivamente, eu não faria nada que não tivesse um mínimo de coerência com aquilo em que eu acreditava.
Lili continuava na mesma, mas, agora, eu sabia exatamente o que tinha que fazer: eu traria a luz de volta aos seus olhos junto com a verdade do meu eu.
Gastei bastante tempo pesquisando sobre o que o mundo andava fazendo pela Educação desde antigamente até o que havia de mais atual. Me inspirando aqui e ali, finalmente cheguei à conclusão de que eu deveria construir a minha própria escola. Na noite em que isso clareou na minha cabeça, eu não consegui dormir.

Claro que era um projeto ambicioso e eu tinha – quer dizer, tenho – a consciência de que havia muito a ser aprendido, especialmente porque eu nunca havia trabalhado com isso antes.
O primeiro passo foi decidir onde a escola seria instalada. E eu escolhi este lugar, uma grande favela da minha cidade natal.
O projeto ainda é pequeno e tímido e está apenas começando. Sei que vou enfrentar dificuldades, situações com as quais nunca lidei, impasses... por isso vou devagar e sempre.
Porém, não tenho dúvidas de que fiz a coisa certa. Cada vez que vejo o rosto de uma criança querendo aprender, isso é o maior incentivo que eu poderia ter para acreditar que o meu sonho vai vingar!”
E, dizendo isso, ele sorriu um sorriso amável e afetuoso que envolveu as mikos e todo o ambiente em um calor bom e agradável.
Participe! E agora que as mikos sabem sobre o sonho verdadeiro de Fábio, o que virá em seguida? Se você tem um palpite, deixe um comentário logo aí embaixo!
Caso sua contribuição seja aceita, seu nome figurará nos créditos de colaboração da construção da trama. No entanto, ao participar deste processo colaborativo, eles passam a ser parte integrante da história como um todo e, portanto, de propriedade intelectual da autora. Ao enviar uma colaboração, você concorda que está ciente das condições aqui descritas.
Agradecimento: à Pat K. que me “soprou” a trilha sonora deste capítulo mesmo sem querer :-D
Dedicatória: ao Fabio M. hoje e sempre :-*
3 comments:
=) Miki querida!
Sua história está cada vez mais e mais linda! Ela mexe com meu coração e chama pelos meus sonhos adormecidos!! Obrigada! =) Nos vemos no find! hehehe =) Sôdade!!
Que bom ouvir exemplos de sonhos sonhados... Pinceladas! E as Mikos gritam: "Olha ali"! Parece um passo difícil, pede coragem e desapego da 'vida de lá sem sonho', mas é possível! "Olhá cá"! Olho, agora, pra todo lugar...
Do Fabio, a escola?
Outro sonho?
Da vida, a escolha?
Outro molho?
Curiosa! ^.^
Lindo, Miki! Lindo.
perikita que bom!! ^.^ espero q todos todos todos os seus sonhinhos adrumicidos acordem! adorei a visitinha e as frutinhas hihi. venha sempre!
pat pat pat adoro suas intervenções artísticas e sua leitura toda linda e particular na aventura das mikos!
muitos beijos,
miki
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