
Capítulo 22: onde os sonhos extraviados vão parar
Ato 2: o grotão dos sonhos perdidos
por momiji
Para ler ouvindo: “A moça do sonho” de Edu Lobo e Chico Buarque de Hollanda por Maria Bethânia (infelizmente, não encontrei a canção no blip o.O)
Então... era ali, atravessando aquela espécie de porta, que eles moravam. Assim que Saki percebeu o vento muito muito frio e o cheiro forte de musgo, ela teve certeza de que o lugar era aquele.
A gente foi logo entrando, deixando o cogumelo embolorado para trás, o que foi um alívio. O grotão não era muito grande, e não demorou para que a gente encontrasse um grupinho de pesadelinhos sentado em volta do que me pareceu uma caixa velha de frutas. Eles jogavam baralho e o ambiente era como uma cortina de fumaça. Comecei a tossir com o cheiro de cigarro e pó e bolor. Mas isso não foi o pior!

Por mais que Kiku e Saki tentassem se comunicar com as pestinhas, nada aconteceu. Nada! Eles simplesmente IGNORARAM a nossa presença. Aquilo começou a me irritar. Bom, mas também, pensando bem, o pesadelinho que capturamos quando ficamos na casa da Bia também não era lá dos 10 mais comunicativos... eu estava ficando muito muito nervoso com aquilo. Seria possível que teríamos que voltar de mãos abanando porque aquelas coisinhas não iam querer nos ajudar?
Mas nem tudo estava perdido! No auge da minha irritação, adivinhe quem chegou de mala-e-cuia? Ele, Umê!
Umê era o tal pesadelinho que capturamos na casa da Bia e que tinha se pirulitado assim que chegamos no Sonhar (claro que até aí eu ainda não sabia que ele tinha esse nome).
Acho que ele ficou com dó de ver a gente naquele estado, pois perguntou o que a gente fazia ali...
A gente explicou tudo tudinho, aliviados por ter alguém com quem conversar... e terminamos perguntando se ele sabia como fazer para encontrar os sonhos verdadeiros ou... se ele mesmo sabia dizer como é que se fazia para abrir o coração dos homens.
Ele então deu um loooongo suspiro e disse:
“Abrir o coração dos homens, não é?” – ele pigarreou um pouco e continuou – “Não sei se vou conseguir ajudar, mas vou contar uma história para vocês.”
Sentamos em volta de Umê prestando toda a atenção do mundo.
“De repente, a gente acorda. Antes, nada existia. Depois, tudo existia. Nós não conseguimos lembrar ou saber por que estamos ali. Mas sentimos uma chama morna e boa crepitando bem aqui dentro.
Algo nos diz que é preciso manter essa chama viva, custe o que custar.
Percebemos, logo de início, que estamos sempre acompanhando alguém, uma pessoa. Sempre, o tempo todo. Uma mesma pessoa. E, mesmo que não queiramos, vamos ficando próximos dela.
No começo, tudo é muito empolgante, e essa pessoa se aquece com a nossa chama e, não demora muito, a chama vai crescendo e se transformando em uma fogueira brilhante, vigorosa e que aquece e conforta. É que a pessoa, de alguma maneira, vai alimentando esse foguinho.
Porém, pode acontecer desse fogo ir se enfraquecendo. Começa com um leve esmaecimento, a chama brilha com um pouco menos de intensidade. Então, de fogueira que era, ela volta a ser menos. E cada vez menos, menos, menos... e logo – e nesse ponto vejo uma lágrima nos olhos do Umê – logo, vem o esquecimento... a chama é pouco mais do que um fiapo fraco de luz, como uma vela gemendo no fim da vida, sabe?
As ligações vão se enfraquecendo, enfraquecendo, enfraquecendo... até que não há energia suficiente que nos mantenha conectados o tempo todo. Então, quando ela fica fraca demais, aparecemos por aqui no Grotão dos Sonhos Perdidos.
Foi mais ou menos assim com cada um de nós.
Às vezes, muito raramente, um “interno” pode retornar. Mas a maioria de nós acaba ficando aqui para sempre... vez ou outra somos chamados no meio da noite. Só que, em quase todas as vezes, é só uma recaída veloz e não um chamado de retorno. E quando isso acontece é por demais triste. Porque acabamos a noite encerrados em uma caixa escura, com uma tampa nos vedando e nos sufocando. Uma fagulha de esperança que nos é mostrada para, logo em seguida, nos ser arrancada de novo.”
Ele parou de falar porque (acho eu) ficou com vontade de chorar.
A gente ficou ali, todo mundo quieto, morrendo de pena do Umê.
“Nunca vou me esquecer de quando o Pedrinho me batizou de “Umê”. Eu adorei meu nome desde sempre. Foi muito triste ser esquecido como um brinquedo velho embaixo da cama, mas, no fundo, meu nome me dava uma esperança de que, algum dia, o Pedrinho cairia em si e me resgataria...
E eu estava certo! Esse dia chegou. Ele finalmente percebeu que se não correr atrás de realizar seu Sonho Verdadeiro, sua existência será um grande vazio.
Estou de partida, vêem minha mala?
Foi sorte de vocês chegarem agora. Eu me solidarizo com o fato de que meus colegas não quisessem falar sobre isso com vocês. É muito doído, sabe? Eu mesmo não teria falado em outra conjuntura. Mas um novo horizonte se abre para mim a partir de agora. A esperança que mora em meu nome finalmente acordou depois de um longo período latente.”
E, com um meio sorriso, ele se despediu, dizendo que já estava atrasado, mas que gostou de nos ter ajudado.
Bem que eu achei que ele estava um pouco diferente quando o vi...

Participe! E agora, o que será que as mikos vão fazer com tudo o que descobriram? Se você tem um palpite, deixe um comentário logo aí embaixo!
Caso sua contribuição seja aceita, seu nome figurará nos créditos de colaboração da construção da trama. No entanto, ao participar deste processo colaborativo, eles passam a ser parte integrante da história como um todo e, portanto, de propriedade intelectual da autora. Ao enviar uma colaboração, você concorda que está ciente das condições aqui descritas.
Agradecimentos: ao Alex Atala e ao caderno Paladar que me inspiraram com sua edição de defumados ^.^ hohoho. E também a Edu Lobo, Chico Buarque e Maria Bethânia de quem furtei o título do capítulo!
3 comments:
A caixa velha de frutas, o cheiro de fumaça, de bolor, o baralho... um cassino subterrâneo é bem pesadelístico mesmo. Ainda bem que Umê apareceu (lembro como ele, no começo, era azedinho como se fosse picles hihi, mas agora tava mais felizinho com sorriso doce de fruta e mala rosinha). Linda a história de Ume, da chaminha, da fagulha de esperança.
Quanta informação nova! O que será que vai acontecer? Estou pensando em vocês.
PS: Adorei a trilha!!
hihi, pat, eu amo suas interpretações sobre minhas escrevinhações! um cassino subterrâneo! eu não tinha pensado nisso, mas é isso que é né? hihi.
e depois... umê, azedo, picles, tudo a ver né! - por sinal, adoro umê! e bala com umê no meio, então? é bizarro mas eu amo. hihi. bom, estou longe, muito longe de ser uma pessoa normal OMG o.O!!!
beijos, fofa! e obrigada pelo apoio aqui na historinha das mikos e na vida ^^
pat, ahhh, a trilha, esqueci-me de falar no outro comment... só fiquei triste pq nao achei a betha... vc já ouviu ela cantando essa música? é tão lindo tão lindo tão lindo... o primeiro show q vi dela =). desde q comecei a escrevinhar esse conto, essa música não me sai da cabeça, mas estava guardando-a para um capítulo especial, que tivesse a ver com ele!!!
besitos
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