
Capítulo 22: onde os sonhos extraviados vão parar
Ato 1: uma jornada incomum
por miki w.
Para ler ouvindo: “Sæglópur” por Sigur Rós
A noite estava fria e eles estavam todos aninhados em volta da lareira feito gatos. Discutiam as últimas descobertas animadamente:
- Então... se os sonhos verdadeiros ainda existem, eles devem saber como é que se faz para abrir o coração dos homens, não? – disse Sakurá.
Ao que Momiji adicionou:
- Eu também acho a mesma coisa! Pois se eles estão sendo sonhados agora, com certeza foram acordados em algum momento!
- E, se eles foram acordados, devem saber dizer o quê fez com que eles despertassem! – concluiu Yanagi exultante.
- Quer dizer... que basta a gente encontrar com eles! Mas... onde será que eles vivem? Será que moram aqui, com Morpheus, em algum lugar do Sonhar? – perguntou Sakurá e, olhinhos virados para cima, pôs-se a revisar mentalmente o grande caderno de esboços com o mapeamento do Sonhar.
- Hum... não encontro nada que me chame a atenção em especial... – ela disse após algum tempo – E agora?
- Sakurá, eu acho que se vasculhássemos o grotão, poderíamos encontrar alguma pista.
- Tampopo tem razão! Se o grotão que encontramos abrigar mesmo outros sonhos desgarrados, é possível que eles saibam dizer onde podemos encontrar os sonhos verdadeiros, já que, um dia, eles também foram assim. – palpitou Kiku.
- Me ocorreu agora que se eles também já foram sonhos verdadeiros, talvez... até mesmo eles saibam a resposta! – concluiu Yanagi.
E foi assim que decidiram partir.
Reencontrar um lugar no Sonhar, mesmo com um mapa em mãos, não era uma tarefa exatamente fácil, especialmente quando não se está habituado aos procedimentos. Nem por isso, as mikos ficaram desanimadas.
Com o mapa em mãos, deixaram o Castelo e, no jardim, uniram-se em roda, fecharam os olhos e assim permaneceram concentradíssimos por alguns momentos.
É difícil descrever o ato de vasculhar o Sonhar para alguém que está acostumado a um mundo onde “tudo-tem-o-seu-devido-lugar-e-pronto”. Mas, tentando fazer uma analogia, seria algo parecido com flutuar no espaço, onde não há gravidade. O começo sempre é boiando num ponto qualquer. Depois, navega-se entre as “entidades” do caminho. Com o tempo e o treino, a pessoa consegue que o que ela esteja procurando avance ou retroceda em sua direção (ou vice-versa). Numa aproximação grosseira, seria mais ou menos isso.
Pois lá estavam as mikos boiando um pouco como barquinhos perdidos. Elas sabiam, pelo mapa, que a primeira coisa a fazer era entrar na Borrasca Interminável. Foram navegando, flutuando até que a encontraram. Foi uma longa travessia que – conforme o nome prometia – parecia não ter fim. Eles já estavam todos verdes de tão enjoados quando a turbulência das ondas foi diminuindo, diminuindo, diminuindo até ficar totalmente para trás. As águas ficaram calmas, nada mais balançava violentamente como antes, embora a chuva persistisse.
Sakurá deu uma espiada no mapa: estavam no caminho certo, primeiro a Borrasca Interminável, depois a Chuva Púrpura Gélida. Sem esmorecer, continuaram navegando. Passou-se mais um tempo considerável e eles se sentiam molhados até o fundo da alma. Mas continuaram em frente, sempre em frente.
Seguindo sem olhar para trás, alcançaram a Câmara de Gelo Seco. Tudo era esfumaçado e aquilo parecia uma imensa redoma. Uma névoa branca e seca parecia vir da abóboda. Bom, ao menos, ficaram secos, embora o frio continuasse cada vez mais intenso. Aromas de arenque e salmão insistiam em entrar por suas narinas o tempo todo. Mesmo com todas essas adversidades, eles continuaram sua jornada.
Quando a Câmara já parecia ser uma lembrança distante, mais uma espiadela no mapa e eles, então, concentraram-se em encontrar a Ciranda de Criaturas de Papel Pardo. Vasculhavam daqui e dali, desviando das entidades que não lhes interessavam quando, de repente, sentiram a mandala chegando até eles desgovernada. Segurando o fôlego, mergulharam todos para dentro dela e lá se foram eles para aquela que, ao que o mapa indicava, era a última etapa para alcançar o Grotão dos Sonhos Perdidos.
Pois dito e feito: ao mergulharem dentro da Ciranda, caíram diretamente no Bosque dos Musgos Escorreguentos no fim do qual, eles aportaram – como quem acaba de deslizar de um tobogã – à frente de um cogumelo gigante e embolorado que lhes deu a impressão de ser, em algum arremedo grotesco, uma lembrança de porta.
Parece que haviam, finalmente, chegado à entrada do Grotão dos Sonhos Perdidos...

» ler o ato 2 do capítulo 22
2 comments:
Que lugar muito estranho... a chuva púrpura gélida (que molhado), a câmara de gelo seco (que frio), a ciranda de criaturas do papel pardo (que enigma) e o bosque dos musgos escorreguentos (que tobogã)! Bom, deixa eu entrar nesse cogumelão com as mikos e cair na parte 2!
hihi! entrar no cogumelão - agora que pensei - é meio psicodélico e meio apológico às drogas né? :p
besitos!
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